segunda-feira, 31 de julho de 2017

Caminho das Águas Tietê o rio dos paulistas


O caminho das águas, os rios do Brasil:
o Tietê dos paulistas
O Tietê ou Anhembi, como ainda o chamam, não é, para os paulistas, apenas um rio de planalto, mas um credo de fé, uma religião. Não só o rio histórico, pelo qual os antigos canoeiros e regatões, partindo da velha Araraitaguaba (ou Araritaguaba, “barreiro das araras”), atingiam a distante Vila do Bom Jesus de Cuiabá. O episódio das monções levou o povoamento do Planalto paulistano, mais precisamente de Parnaíba, até o Mato Grosso, que já nasceu paulista e mameluco. As expedições monçoeiras contam a história seiscentista dessas duas regiões, em detalhes preciosos. TAUNAY retratou-a em todos os seus passos, procurando recuperar não apenas o espírito conquistador do europeu tornado mestiço, como a própria trajetória bandeirantista, com seus riscos, suas dificuldades, suas lutas, suas mortes. Os objetivos e a motivação dessas viagens: apresamento, encontro das jazidas minerais, os descobertos, o alargamento das fronteiras de São Paulo e do território português, a posse da terra virgem, a riqueza, mas também a própria subsistência do homem planaltino. São Paulo era pobre, pobre de recursos econômicos, pobre de homens.
Em São Paulo, o Tietê, ou o “rio grande de unas aves añumas”, segundo o Governador do Paraguai, Don Luís de Céspedes Xeria, no primeiro mapeamento oficial de seu curso, em 1628, exerceu o mesmo papel de integração das comunidades ribeirinhas que o São Francisco, embora em nível regional. Mas a conseqüência da ação que desencadeou, como instrumento útil para a sua realização, o projetou além dos limites estaduais.
Muito se falou do Tietê, desde a fundação de São Paulo e da escolha do local para assentamento do Colégio Jesuístico, no chamado delta do Tamanduateí, pelo Padre Nóbrega, em 1553. As Atas da Câmara da Vila do Campo, desde 1562, o descrevem como o “rio grande da vila”, bastante piscoso, tanto na parte alta, junto ao núcleo, na várzea do Pari, como rio abaixo, rumo ao interior, atravessando os sertões. Navegável, até onde permitiam os saltos e as corredeiras que atravancavam o seu leito, a partir de Araraitaguaba.
Em 1953, segundo ROCHA (1991: 19), foi determinada a nascente do rio, em terras paulistas, legitimando-o como marco histórico do povoamento de são Paulo. Essas nascentes estão no município de Salesópolis, a 25 km de sua sede, “nos contrafortes da banda ocidental da Serra do Mar”. Aí, ele inicia a aventura para o interior, até o encontro das águas do Paraná, onde morre. De acordo com AZEVEDO MARQUES (1958: 285-6), o Tietê desenvolve um trajeto de 200 léguas ou 1120 km e banha alguns municípios do estado, como Mogi das Cruzes, Santa Isabel, Salto, Itu, Cerquilho, Tietê, Porto Feliz, Laranjal Paulista, Iacanga, Capivari, Tatuí, Botucatu, Anhembi, Barra Bonita, Arealva, Boracea, Ibitinga, Novo Horizonte, Sabino, Sales, Sud Menucci, até o pontal do estado, em Pereira Barreto. Ao entrar na antiga Vila do Campo, vindo de suas nascentes, pelo norte, margeava terras das primitivas freguesias tornadas, depois, bairros populosos, como N. Senhora da Esperança do Ó (Freguesia do Ó), Piqueri, Morro Grande, os sítios de Carapicuíba e Barueri, atingindo a vila de Parnaíba (Santana do Parnaíba), em busca de Pirapora do Bom Jesus; daí em diante, é o rio do interior, da conquista do oeste.
Olhando o seu curso nos mapas, que projeta uma posição contrária ao São Francisco, ao vencer todos os obstáculos para chegar ao mar, entende-se porque o Tietê auxiliou na vocação sertanista dos mamelucos, correndo na contra-mão do destino hidrográfico natural dos demais rios. Para a vila seiscentista e para a cidade imperial do século XVIII, embrião da São Paulo-metrópole, o Tietê era e é o rio-símbolo de sua memória, apesar da degradação ambiental que o urbanismo lhe acarretou. Seu afluente maior, o Tamanduateí, tão importante para o quinhentismo e seiscentismo paulistanos, perdeu o significado histórico a partir de suas canalizações, projetadas desde João Teodoro. Talvez o desaparecimento posterior da “ponte pequena”, que permitia a comunicação da várzea com a própria vila e com o núcleo insipiente do Bom Jesus (Brás), no caminho da Penha, significasse o início do esquecimento de suas funções de aglutinador e adensador populacional interno, tanto quanto o Tietê era dispersor.
Examinando-se o mapa hidrográfico de São Paulo, da vila e do estado, pode-se obter um reconhecimento mais detalhado destes pontos:
influência indígena tupi nos topônimos dos sub-afluentes do Tietê, a partir de dois dos seus formadores mais conhecidos, no planalto, o Tamanduateí e o Anhangabaú;
a trajetória do Tietê para oeste, a construção de cidades às suas margens, como se mencionou, a presença de topônimos portugueses de origem religiosa, mesclando-se com a camada primitiva, e que alavancaram o cruzamento das fronteiras lingüísticas e geográficas, como decorrência não apenas do período bandeirante mas da própria população devota, instalada, aos poucos, nesses sítios.
É oportuno transcrever aqui, a informação de BIERRENBACH LIMA (1946: 89-91) sobre a bacia hidrográfica de São Paulo do Campo - como preferimos usar ao invés de São Paulo de Piratininga, de acordo com nossa pesquisa anterior (DICK, 1997) -: “As águas dos córregos, ribeirões e rios, alheios ao crescer da cidade, continuavam a correr silenciosamente nos seus leitos naturais nas épocas de estiagem; quando chegava a época das chuvas transbordando espraiavam suas águas pelas baixadas formando pequenos e grandes alagadiços cuja superfície esbranquiçante formava um contraste interessante no vale claro dos campos dessa região”. As enchentes mencionadas pelo engenheiro Bierrenbach mostram que a São Paulo atual já padecia dos mesmos males desde os primeiros tempos de vida, por causa da situação do terreno. ANCHIETA a ela se referiu em dois momentos, na Carta ao Padre Geral de São Vicente, em 1º de junho de 1560 (Cartas Jesuíticas, III: 149ª, 152-153), mencionando o fenômeno da piratininga (“peixe seco”). As cheias atingiam a todos os córregos da vila, cujos topônimos são lembrados até hoje, com poucas exceções: Saracura Grande e Pequeno, Iacuba, Pacaembu, Guaré, Cambuci, Ipiranga, Mooca, Piratininga (que talvez nem tenha existido, como diz Azevedo Marques). O mapa em anexo ao texto de Bierrenbach Lima mostra a localização geográfica desses acidentes na rede urbana da cidade (ib.: 90).
No plano estadual, os afluentes do Tietê mantêm a tendência indígena da nomeação: rios Jundiaí, Sorocaba, Capivari, Piracicaba, resultante de três outros, o Atibaia, o Jaguari e Camanducaia, quase nos limites de Minas. São também bastante conhecidos o Jacaré-Guaçu e o Jacaré Pepira, principalmente este. O Tietê alcança o Paraná ladeado por dois outros cursos consideráveis, o Aguapeí ou Feio e o São José dos Dourados, um dos poucos topônimos em português, nos maiores afluentes. Considerando-se, porém, a bacia hidrográfica geral do estado, outros nomes indígenas tupis distribuem-se, cartograficamente, como o Paranapanema, o Itararé, o Itapirapuã, o Itapetininga, o Apiaí, o Taquari, a sudoeste, contribuindo com suas águas para o mesmo complexo tieteano; a sudeste, os maiores cursos também são bastante conhecidos, como o Paraíba, o Paraibuna, o Paraitinga; a nordeste, sobressaem-se o Mogi-Guaçu e o Mogi-Mirim; e, ao norte, o Sapucaí-Mirim, zona limítrofe com Minas.
À medida que o rio sai do município de são Paulo, para o interior, duas características ganham vulto: a - as expedições monçoeiras de Araraitaguaba, no século XVII, responsáveis pela expansão das fronteiras paulistas para o centro-oeste, como se mencionou; b - os acidentes fluviais, saltos, cachoeiras, cataratas, que interrompiam, constantemente, a travessia, conforme os estudos pioneiros de TAUNAY e os de DRUMOND e NOGUEIRA (1982), sobre a toponímia do Tietê.
Drumond e Nogueira, em seu trabalho, examinaram mapas, diários e relatos de viagem, levantando cerca de 398 acidentes entre córregos, ribeirões, rios, cachoeiras, corredeiras, ilhas, águas, portos, saltos, canais, voltas, lagoas, pontal. Submeteram os topônimos ao modelo taxionômico de (DICK c, 1980), que revelou, como índices motivadores preferenciais, ou campos semânticos de maior ocorrência, as categorias zoo e fitotoponímicas, acompanhando, assim, as tendências comuns em acidentes físicos. Desse levantamento, que pode ser considerado um tipo de glossário terminológico específico, com macro e micro-estruturas aproximadas do modelo lexicográfico em uso, chama atenção a ênfase às etimologias das entradas lexicais e as referências às folhas topográficas ou registro dos acidentes inventariados. Reestudando o campo etimológico coletado pelos autores, encontramos cerca de 135 matrizes indígenas, o que reforça a conclusão de estudiosos como DAUZAT, ao fixarem a antigüidade dos topônimos de rios e montes às primitivas camadas lingüisticas regionais, e a sua permanência no decorrer dos tempos. Mudam os nomes dos acidentes antropo-culturais, os dos físicos permanecem.
Completando, também, os apontamentos cartográficos mencionados, em ADONIAS, no capítulo referente a São Paulo, o Tietê aparece citado em algumas cartas, poucas, é verdade: Plano do Rio Tietê ou Añemby desde a Cidade do mesmo nome até a sua confluência no Rio Paraná ou Rio Grande, levantada por Francisco José de Lacerda e Almeida, 1788 e 1789 (p.491); Mapa Corographico da Capitania de São Paulo, de Roiz Montesinho (1791-1792), com esta anotação de interesse: “O Rio Tietê d’esde o Porto d’Araraytaguaba athe a sua Barra no Paraná, o mesmo athe a sua Confluencia com o Rio Pardo e este até a Fazenda Camapoana com todos os mais rios que nella fazem Barra, forão observados em 1789 pelo Astrônomo de S.Magde. Franco. José de Lacerda” (p.492). Do ponto de vista etnolingüístico, a leitura das Cartas das Capitanias de São Paulo e do Paraná, em especial da baía de Paranaguá, mostra a presença maciça dos índios de origem tupi, com referência ao sub-grupo Tupiniquim (p. 503) e aos Guarani, sub-grupo Carijó. Na Carta sobre os Campos de Guarapuava (1771-1772), a anotação refere-se aos índios Xokleng, ainda remanescentes na ilha de Santa Catarina. São de origem makro-jê, incluídos na família Jê, dos quais a nomenclatura geográfica oficial não registrou topônimos.
Quanto às expedições monçoeiras, que definiram o Tietê, historicamente, pode-se acompanhar o pensamento dos autores em geral, que dizem ser o melhor biografado a esse respeito. Um e outras estão de tal forma ligados que chegam a ser excludentes, do ponto de vista semântico. Ambos são pressupostos de cada um, ao serem tomados em sua individualidade. ALMEIDA ROCHA, referindo-se a esse fato, destaca algumas causas do declínio do ciclo monçoeiro, dentre as quais, além daquelas já discutidas em outros compêndios, o “advento do barco a vapor, navegando pelo Prata e outros rios de maior calado” (ib.: 22), o que tornaria obsoleta a navegação tradicional, nos primitivos batelões, difíceis de vencer a longa série dos acidentes naturais, já mencionados.
Em estudo anterior (DICK c, 1990), tivemos oportunidade de analisar os Relatos de Taunay, para quem a navegação do Tietê era mais antiga que a do São Francisco, e de comprovar essa situação, já enunciada no levantamento de Drumond e Nogueira. De acordo com Taunay, em 1727, Gervasio Leite Rabelo, um século depois da documentação de 1628, para atingir a foz do rio, “tivera de vencer 160 obstáculos entre cachoeiras, correntezas, itaipavas trechos de cirga, despenhadeiros, contrassaltos, funis, jupiás, redemoinhos, e tucunduvas”; além disso, “as monções cuiabanas” tinham que “atravessar terras inóspitas habitadas por nações belicosíssimas como os paiaguás, guaicurús e caiapós” (TAUNAY, In: DICK, 1990: 199-200). AZEVEDO MARQUES (ib.: 286), por sua vez, refere-se ao Tietê desta forma: “De álveo tortuosíssimo o Tietê não oferece a navegação que comportam suas águas, porque, além da circunstância apontada, o seu leito é pela maior parte de formação granítica com grande número de ilhas, cachoeiras e corredeiras, partindo de Porto Feliz”, o que só reforça o destemor dos mamelucos e a necessidade que os impelia para além do planalto.
Não é objetivo desta Comunicação, entretanto, o reexame dos Relatos, que serão discutidos em texto à parte e complementar às pesquisas toponímicas subsidiárias do Atlas Toponímico do Estado de São Paulo, ora em conclusão. Mas é conveniente referir, com o autor, a importância dessa trajetória fluvial para a descoberta das minas de Cuiabá, uma vez que as das Gerais e de Goiás tiveram outro roteiro terrestre, ainda que partindo também de são Paulo. As primeiras expedições paulistas que atingiram Mato Grosso foram as de Manoel de Campos Bicudo, seu filho Antonio Pires de Campos, no século XVIII, e as do pioneiro, Pascoal Moreira Cabral Leme, em 1685, que chega em Miranda (antigo Mboteteú) e estabelece aí o núcleo mameluco dos paulistas em terras matogrossenses. A Notícia 6ª Prática (Relatos: 112), relativa à viagem do Governador e Capitão General de São Paulo às minas de Cuiabá, descobertas em seu governo, especifica, com minúcias, o tempo decorrido na viagem, desde a partida da vila, em 07 de julho de 1726, à chegada ao destino, em 1º de fevereiro de 1727, bem como os lugares e rios percorridos. O arraial das minas, em Mato Grosso, foi dedicado ao Senhor Bom Jesus, situado a meia légua do Porto Geral, no rio Cuiabá. Em 1º de janeiro de 1727, o arraial recebeu do governador os foros de vila, com o nome de Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá.
Essa a missão histórica e etnolingüística do Tietê, iniciada, para esse fim, na freguesia de Araraitaguaba, depois freguesia de Nossa Senhora Mãe dos Homens, hoje, simplesmente, Porto Feliz, topônimo eufemístico, a marcar o momento das despedidas dos monçoeiros e o desejo de feliz travessia.

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